ÁREAS CLASSIFICADAS

janeiro 10, 2026

1 – INTRODUÇÃO

A classificação de áreas em instalações com presença (ou possibilidade de presença) de gases, vapores e névoas inflamáveis não é um exercício burocrático: é uma etapa que conecta processo, integridade mecânica, ventilação, probabilidade de liberação e seleção adequada de equipamentos e até uma possivel desclassificação.

A ABNT NBR IEC 60079-10-1 (08.09.2022) consolida esse raciocínio ao definir critérios para identificar onde pode existir uma atmosfera explosiva de gás, isto é, uma mistura com o ar, sob condições atmosféricas, que após ignição permite a autossustentação e propagação de chamas.

O ganho de maturidade técnica aqui está em abandonar conclusões simplistas (“tem inflamável, então tudo é zona”) e adotar uma leitura mais fiel ao fenômeno: o risco depende de haver liberação, formação de mistura dentro da faixa de explosividade e presença de fonte de ignição. A norma ajuda a organizar principalmente os dois primeiros fatores (liberação e mistura), preparando o terreno para decisões de engenharia mais consistentes.

2 – DEFINIÇÕES NORMATIVAS

Antes de qualquer cálculo, a norma estabelece um vocabulário objetivo:

LIMITE DE INFLAMABILIDADE: O limite de inflamabilidade é uma característica dos inflamáveis. Para que tenhamos o limite de inflamabilidade é preciso que o inflamável se apresente na forma de gases/vapores, e são expressas em porcentagem em relação ao volume do ambiente ou área.

O limite de inflamabilidade apresenta-se de três formas:

 LIMITE INFERIOR DE INFLAMABILIDADE – LII: O limite inferior de inflamabilidade tem por característica a menor concentração de gases/vapores em relação ao ar atmosférico, popularmente conhecido como mistura pobre. Nessa condição os gases/vapores não se encontram em equilíbrio do comburente, pois, se apresentam em pouco volume, e, portanto, na presença de uma fonte de ignição não ocorrerá o evento (Explosão).

 LIMITE SUPERIOR DE INFLAMABILIDADE – LSI: O limite superior de inflamabilidade tem por característica a maior concentração de gases/vapores em relação ao ar atmosférico, popularmente conhecido como mistura rica. Nessa condição os gases/vapores não se encontram em equilíbrio do comburente, pois apresentam-se em excesso em relação ao comburente, e, portanto, na presença de uma fonte de ignição não ocorrerá o evento (Explosão).

CONCENTRAÇÃO IDEAL DE INFLAMABILIDADE – CII: A concentração ideal de inflamabilidade ou mistura ideal de inflamabilidade, tem por característica o equilíbrio químico entre o combustível e o comburente, e na presença de uma fonte de ignição, teremos um evento (Explosão).

 PONTO DE FULGOR – PF: O ponto de fulgor é a menor temperatura em que a matéria começa e se transformar em estado gasoso (combustível). Esse gás entra em equilíbrio com o oxigênio (comburente), e na presença de uma fonte de calor (temperatura), entra em combustão, porém, ela não se sustenta devido à baixa temperatura molecular do gás.

Gás + O2 + Fonte de Calor = Fogo

 DEFINIÇÃO DE LÍQUIDOS E COMBUSTÍVEIS INFLAMÁVEIS – NR 20

A norma regulamentadora NR 20, considera líquidos, gases e combustíveis inflamáveis todo o produto que se classificar no item 20.3, 20.3.1, 20.3.1.1, 20.3.2 e 20.3.3 das portarias MTb nº 3.214 de 08 de junho de 1978 e SEPRT nº 1.360 de 09 de dezembro de 2019, conforme apresentação abaixo:

  • 20.3 – Definições.

  • 20.3.1 -. Líquidos inflamáveis: são líquidos que possuem ponto de fulgor ≤ 60º C.

  • 20.3.1.1 – Líquidos que possuem ponto de fulgor superior a 60ºC (sessenta graus Celsius), quando armazenados e transferidos aquecidos a temperaturas iguais ou superiores ao seu ponto de fulgor, se equiparam aos líquidos inflamáveis.

  • 20.3.2 Gases inflamáveis: São gases que inflamam com o ar a 20ºC e a uma pressão padrão de 101,3 kPa.

  • 20.3.3 – Líquidos combustíveis: são líquidos com ponto de fulgor >60º C e ≤ 93º C.

 DEFINIÇÃO DE ÁREAS CLASSIFICADAS

A ABNT NBR IEC 60079 – 10 – 1, refere-se à classificação de área onde pode ocorrer a presença de gases e vapores inflamáveis e pode ser utilizada como base para a seleção adequada de equipamentos para a utilização de áreas classificadas.

 A definição de área classificada é: Área em que uma atmosfera explosiva de gás está presente ou é esperado que esteja presente em quantidades tais que requeiram precauções especiais construção, instalação e utilização de equipamentos.

Nota 1: Os interiores de diversas partes de equipamentos de processo são comumente considerados áreas classificadas, mesmo se uma atmosfera explosiva não pode estar presente, de forma a considerar a possibilidade de entrada de ar no equipamento. Quando o sistema de controle específicos, como a inertização, são utilizados, o interior de certos equipamentos pode ser considerado uma área não classificada.

A ABNT NBR IEC 60079 – 10 – 1 define, ainda:

 ATMOSFERA EXPLOSIVA: Mistura com o ar, sob condições atmosféricas, de substâncias inflamáveis, na forma de gás, vapor, poeira, fibras, partículas combustíveis suspensas, que, após a ignição, permite autossustentação de propagação de chamas.

 ATMOSFERA EXPLOSIVA DE GÁS: Mistura com o ar, sob condições atmosféricas, de substâncias inflamáveis, na forma de gás ou vapor, que, após a ignição, permite autossustentação de propagação de chamas.

Nota 1: Embora uma mistura que possua uma concentração acima do seu Limite Superior de Explosividade (LSE), não seja uma atmosfera explosiva de gás, esta pode rapidamente se tornar explosiva e, geralmente para os objetivos de classificação de áreas, é recomendável que esta seja considerada uma atmosfera explosiva.

 ÁREAS NÃO CLASSIFICADAS: Áreas em que uma atmosfera explosiva de gás não é esperada para estar presente em quantidades tais que requeiram precauções especiais para a construção, instalação e utilização de equipamentos.

PRINCÍPIO DE CLASSIFICAÇÃO DE ÁREA E ZONEAMENTO: O desenvolvimento de um trabalho de classificação de áreas de uma unidade industrial começa com a análise da “probabilidade” da existência ou aparição de atmosferas explosivas nos diferentes locais da unidade, que serão posteriormente definidas como Zonas 0, 1 ou 2. Portanto, é necessário que existam produtos que possam gerar essas atmosferas explosivas podendo ser gases inflamáveis, líquidos inflamáveis ou ainda poeiras/fibras combustíveis que podem ser liberados para o ambiente pelos equipamentos de processo que representam fontes potenciais de áreas classificadas.

 ZONAS: Classificação de área com base na frequência da ocorrência e duração de uma atmosfera explosiva de gás.

ZONA 0: Área em que uma atmosfera explosiva de gás está presente continuamente ou por longos períodos ou frequentemente.

Nota: tanto os termos “longos” e “frequentemente” são termos que são destinados a descrever uma alta probabilidade de presença de uma atmosfera explosiva nas áreas. Neste sentido, estes termos não precisam ser necessariamente quantitativos.

ZONA 1: Área em que é provável que uma atmosfera explosiva de gás ocorra periodicamente ou eventualmente em condições normais de operação.

ZONA 2: Área em que não é provável que uma atmosfera explosiva de gás ocorra em condições normais de operação, mas, se ocorrer, irá existir somente por um curto período.

Em geral, parte dos equipamentos do processo, tais como tampas, tomadas de amostras, bocas de visita, drenos, ventos, respiros, flanges etc. são considerados “fontes de risco” pela possibilidade de vazamento de produtos para os ambientes onde estão instalados. Estas fontes de risco são classificadas em “graus”, dependendo da duração e frequência das atmosferas explosivas geradas por elas.

 EXTENSÃO DE ZONA: Distância em qualquer direção a partir da fonte de liberação em que a uma mistura de gás com o ar, é diluída pelo ar até uma concentração abaixo do Limite Inferior de Explosividade (LIE).

ZONA DE EXTENSÃO DESPREZÍVEL – ED: Zona de Extensão desprezível tal que, caso uma ignição ocorresse, ela teria consequências desprezíveis.

Nota 1 de entrada: Zonas de extensão desprezíveis podem ser Zona 0 ED, Zona 1 ED, Zona 2 ED.

FONTE DE LIBERAÇÃO: Um ponto ou um local a partir do qual um gás, vapor ou névoa inflamável pode ser liberado para a atmosfera, de forma que uma atmosfera explosiva possa ser formada.

 LIBERAÇÃO DE GRAU CONTÍNUO: Liberação que é continua ou é esperado que ocorra frequentemente ou por longos períodos.

Nota: tanto os termos “longos” e “frequentemente” são termos que são destinados a descrever uma alta probabilidade de presença de uma atmosfera explosiva nas áreas. Neste sentido, estes termos não precisam ser necessariamente quantitativos.

 LIBERAÇÃO DE GRAU PRIMÁRIO: Liberação que pode ser esperada para ocorrer periodicamente ou ocasionalmente durante a operação normal.

 LIBERAÇÃO DE GRAU SECUNDÁRIO: Liberação que não é esperado que ocorra em operação normal e, se ocorrer, é somente de forma pouco frequente e por curto período.

TAXA DE LIBERAÇÃO: Quantidade de gás, vapor ou névoa inflamável emitida por uma unidade de tempo pela fonte de liberação.

 SUBSTÂNCIA INFLAMÁVEL: Substância que é inflamável por si só ou que é capaz de produzir um gás, vapor ou névoa inflamável.

 LÍQUIDO INFLAMÁVEL: Líquido capaz de produzir vapor inflamável sob qualquer condição de operação prevista.

Nota 1: Um exemplo de condição de operação prevista é quando o líquido inflamável é processado a temperatura próxima ou acima do seu ponto de fulgor.

Nota 2: Esta definição é utilizada para classificação de áreas e pode ser diferente de outras definições de líquidos inflamáveis utilizadas para outras finalidades, por exemplo, para classificação de líquidos inflamáveis, para fins de transportes.

 GÁS LIQUEFEITO INFLAMÁVEL: Substância inflamável que é armazenada ou processada como um líquido e que, à temperatura ambiente e à pressão atmosférica, é um gás inflamável.

 GÁS OU VAPOR INFLAMÁVEL: Gás ou vapor que, quando misturado com o ar em determinadas proporções, forma uma atmosfera explosiva de gás.

 NÉVOA INFLAMÁVEL: Gotículas de líquido inflamável, dispersas no ar, de modo a formar uma atmosfera explosiva.

  MISTURA HÍBRIDA: Mistura de gás ou vapor inflamável com poeira.

Nota 1: De acordo com a ABNT NBR IEC 60079 – 10 – 2, o termo “poeira” é definido incluindo poeiras e fibras combustíveis.

Um ponto técnico relevante destacado no texto-base: mesmo misturas acima do Limite Superior de Explosividade (LSE) podem não ser “atmosfera explosiva” naquele instante, mas podem rapidamente se tornar, por isso, na prática de classificação, costuma-se adotar uma postura conservadora em análises.

3 – LEVANTAMENTO DE DADOS PARA O ESTUDO DE ÁREAS CLASSIFICADAS

 

3.1 – AMBIENTE

 

 

Em um estudo de classificação de áreas com atmosferas explosivas por gás, a pergunta “isso é ambiente aberto ou fechado?” não é um detalhe de arquitetura — é um dos fatores que mais influenciam a probabilidade de formação de mistura inflamável, a duração dessa mistura e, por consequência, a extensão e o tipo de zona que tende a ser atribuída ao local.

A razão é direta: ambientes abertos e fechados se comportam de forma muito diferente em termos de ventilação, diluição e acumulação de gases/vapores.

A classificação de área não depende apenas de existir uma fonte de liberação; ela depende de como a liberação se dispersa. É aqui que entra a diferença principal:

AMBIENTE ABERTO:
  • Normalmente conta com ventilação natural (vento, convecção térmica, renovação de ar).

  • Essa ventilação tende a promover diluição mais rápida, reduzindo: o tempo em que a concentração fica dentro da faixa de inflamabilidade; o “volume de influência” ao redor da liberação.

  • Resultado típico: zonas menores e, dependendo do caso, até ausência de área classificada quando a liberação é muito improvável e a diluição é efetiva.

AMBIENTE FECHADO:
  • A renovação do ar é limitada por paredes, teto, obstáculos e caminhos de ar restritos.

  • A diluição pode ser lenta e heterogênea (bolsões, cantos, regiões mortas).

  • Resultado típico: maior chance de: a concentração atingir o LII (limite inferior de inflamabilidade); permanecer dentro da faixa inflamável por mais tempo; formar volumes significativos de mistura perigosa.

  • Consequência: zonas tendem a ser mais extensas e a classificação costuma ser mais conservadora, especialmente se a ventilação mecânica não for robusta.

Um erro comum em estudos é tratar “aberto” como sinônimo de “seguro”. Na prática, existem configurações semiabertas que combinam o pior dos dois mundos:

  • estruturas com cobertura e laterais parciais;

  • pipe racks densos e “paredes” formadas por equipamentos;

  • áreas com barreiras de vento (muros, contêineres, torres, skids);

  • valas, bacias, trenches, galerias e pits (efeito de confinamento local).

Nessas situações, mesmo “do lado de fora”, o escoamento de ar pode ser insuficiente para impedir acumulação local. Tecnicamente, isso afeta diretamente o julgamento de eficácia e disponibilidade da ventilação — e, portanto, o tamanho e a forma das zonas.

Impacto direto na estimativa do “volume de risco” ao redor da liberação

Modelos e critérios de classificação frequentemente usam conceitos equivalentes a um “volume onde a concentração pode se aproximar de frações do LII” (como o Volume Hipotético — Vz em abordagens normativas).

O que muda com “aberto vs. fechado” é o mecanismo de controle do volume:

  • Em ambiente aberto, o volume crítico tende a ser “cortado” pela dispersão e diluição contínuas.

  • Em ambiente fechado, o volume crítico pode: crescer (pela acumulação); persistir (por baixa renovação); migrar (por correntes internas, recirculação e estratificação).

Ou seja: o “formato” do risco deixa de ser apenas uma nuvem ao redor da fonte e passa a ser influenciado por trajetos internos, barreiras, exaustão, pressurização e pontos de aprisionamento.

Consequências práticas: o estudo muda o projeto (e o projeto muda o estudo)

Definir se é aberto/fechado altera decisões objetivas, por exemplo:

  1. Seleção de equipamentos Ex

  2. Instrumentação e automação

  3. Ventilação mecânica: confiabilidade vira requisito, não “conforto”

  4. Operação e manutenção

Em resumo: aberto vs. fechado define a “capacidade do ambiente” de tolerar uma liberação

A melhor forma de enxergar essa escolha é: o ambiente funciona como um “recipiente” mais ou menos capaz de diluir e remover o inflamável.

  • Ambiente aberto geralmente tem alta capacidade de remoção → menor permanência de mistura inflamável.

  • Ambiente fechado geralmente tem baixa capacidade de remoção → maior permanência e maior chance de atingir a faixa inflamável.

Por isso, essa definição é um dos primeiros passos do estudo: ela influencia toda a cadeia lógica (ventilação → diluição → volume perigoso → zona → requisitos Ex).

3.2 – VENTILAÇÃO

 

 

A ventilação é um dos parâmetros mais determinantes no Estudo de Áreas Classificadas, pois controla a diluição e a remoção de gases/vapores inflamáveis liberados por fontes potenciais (flanges, selos, respiros, válvulas, drenos etc.). Na prática, a ventilação influencia diretamente:

  • A probabilidade de uma mistura inflamável atingir concentrações próximas ao LII;

  • O tempo de permanência da mistura na faixa inflamável;

  • A extensão e a forma das zonas (e, portanto, as exigências de equipamentos e instalações “Ex”).

Por esse motivo, a caracterização da ventilação deve ser documentada de forma rastreável e, sempre que aplicável, suportada por cálculo normativo, especialmente em ambientes fechados ou semiabertos com potencial de confinamento.

Para fins de avaliação de ventilação e seus efeitos na dispersão, o local de estudo deve ser classificado como:

AMBIENTE ABERTO:

  • Ambiente Aberto: Tipicamente sujeito à ventilação natural (vento e convecção), com elevada renovação de ar.

  • Em geral, favorece maior diluição e menor persistência de concentrações inflamáveis, podendo reduzir a severidade do zoneamento — desde que não existam barreiras relevantes (paredes, saias, coberturas, obstáculos densos, valas, recessos).

AMBIENTE FECHADO:

  • Possui limitação física à renovação do ar (paredes/fechamentos/cobertura), com tendência a acúmulo e estratificação.

  • Em tais condições, a ventilação passa a ser um fator crítico: se insuficiente, pode aumentar significativamente a extensão das zonas e a duração de atmosferas potencialmente explosivas.

A avaliação de ventilação no estudo pode ser estruturada em dois níveis complementares:

  • Ventilação Local: caracterização qualitativa/observacional do comportamento do ar nas proximidades da(s) fonte(s) de liberação (ex.: zonas mortas, recirculação, obstáculos, direção predominante do vento, presença de exaustão localizada, pontos de aprisionamento). Aplicação típica: ambiente aberto com geometria simples, ou para justificar premissas de dispersão em pontos específicos.

  • Ventilação Normativa: abordagem quantitativa com base em método normativo de ventilação natural em edificações, quando aplicável, incluindo cálculos para estimar a vazão de ar disponível para diluição. Aplicação típica: ambiente fechado (ou semiaberto) onde a renovação de ar precisa ser demonstrada com maior robustez técnica.

Quando o cenário exigir fundamentação quantitativa, a ventilação natural pode ser estimada por mecanismos físicos principais, conforme indicado na estrutura da imagem: ventilação induzida por ventos, ventilação induzida por flutuabilidade (efeito chaminé) e combinação.

3.2.1 – VENTILAÇÃO INDUZIDA POR VENTOS

A vazão de ventilação por vento pode ser estimada por:

Onde:

  • (Q_a): vazão de ar associada à ventilação natural por vento;

  • (C_d): coeficiente de descarga (representa perdas e não idealidades);

  • (A_e): área equivalente de aberturas;

  • (U_w): velocidade do vento incidente;

  • (\Delta C_p): diferença de coeficientes de pressão entre aberturas (barlavento/sotavento).

A área equivalente de aberturas é calculada por:

Onde (A_1) e (A_2) representam as áreas efetivas das aberturas consideradas.

Interpretação para áreas classificadas: quanto maior (Q_a), maior a capacidade de diluição e menor a tendência de permanência de mistura inflamável. Já valores reduzidos de (A_e) (poucas aberturas, aberturas pequenas ou obstruídas) degradam a ventilação e podem justificar classificações mais conservadoras.

3.2.2 – VENTILAÇÃO INDUZIDA POR FLUTUABILIDADE

A ventilação por flutuabilidade pode ser estimada por:

Onde:

  • (\Delta T): diferença de temperatura entre interior e exterior;

  • (T_{in}) e (T_{out}): temperaturas absoluta interna e externa;

  • (g): aceleração da gravidade;

  • (H): desnível/altura efetiva entre aberturas (coluna de ar que promove o efeito chaminé);

  • (C_d) e (A_e) conforme definido anteriormente.

Interpretação para áreas classificadas: em ambientes fechados, o efeito chaminé pode aumentar a renovação de ar em determinadas condições (diferença térmica e altura), mas também pode criar trajetos preferenciais e afetar o caminho de migração de nuvens inflamáveis. Por isso, o estudo deve registrar as hipóteses de (\Delta T) e (H) utilizadas e a coerência com o layout real.

3.3 – CARACTERIZAÇÃO DA SUBSTÂNCIA

 

 

Em um Laudo de Áreas Classificadas (atmosferas explosivas por gás/vapor), esse passo é fundamental porque o estado físico do produto (nas condições reais de processo) define:

  • como a substância pode ser liberada para a atmosfera;

  • com que taxa e por quanto tempo ela pode permanecer na faixa inflamável;

  • quais cenários de liberação são plausíveis (vazamento contínuo, evaporativo, flashing, jato gasoso etc.);

  • e, consequentemente, a extensão e a severidade do zoneamento.

3.4 – PROPRIEDADE FÍSICO-QUIMICA DA SUBSTÂNCIA

 

 

A finalidade desta etapa é fornecer base técnica para:

  1. Definição e validação de cenários de liberação (vazamento de gás/vapor, evaporação de poças, liberações por respiro/dreno/amostragem etc.).

  2. Avaliação de dispersão, diluição e tendência de acumulação, em função do comportamento do fluido na atmosfera.

  3. Suporte à determinação de zonas (extensão e severidade) a partir da probabilidade de formação de mistura inflamável e sua permanência.

Para cada substância, foram levantados e registrados, no mínimo, os seguintes parâmetros (quando aplicáveis ao estado físico e às condições de processo):

  1. Ponto de Fulgor – PF (°C): Propriedade que indica a temperatura mínima na qual um líquido passa a emitir vapores em quantidade suficiente para formar, com o ar, uma mistura inflamável sob condições padronizadas. No estudo, o PF é utilizado para avaliar a probabilidade de geração de vapores inflamáveis em função da temperatura de operação e ambiente, orientando a plausibilidade de cenários envolvendo vazamentos de líquido, formação de poças e evaporação.

  2. Ponto de Ebulição – PE (°C): Indica a temperatura na qual a substância muda de fase (líquido para vapor) sob condições de referência. No contexto do estudo, o PE auxilia na análise de volatilidade e na tendência de rápida vaporização, sendo relevante para estimar se uma liberação de líquido pode resultar em formação significativa de vapor (inclusive com possibilidade de flashing, quando aplicável às condições de processo).

  3. Densidade Absoluta do Líquido – d (kg/m³): Propriedade empregada como suporte na caracterização de cenários de vazamento em fase líquida (massa liberada, comportamento de escoamento/poça e potencial de evaporação a partir da área exposta). A densidade do líquido também contribui para consistência de cálculos de inventário e para análise de consequências operacionais associadas à contenção secundária.

  4. Densidade Absoluta do Vapor – d (kg/m³): Propriedade crítica para avaliar o comportamento do vapor na atmosfera, especialmente quanto à tendência de acumulação em áreas baixas (quando o vapor é mais denso que o ar) ou de dispersão com maior facilidade. No estudo de áreas classificadas, essa informação suporta a avaliação qualitativa/quantitativa de dispersão, identificação de pontos de aprisionamento e priorização de controle em ambientes fechados/semiabertos.

  5. Temperatura de Autoignição – TAI (°C): Temperatura mínima na qual a mistura inflamável pode se inflamar sem fonte externa de ignição por chama/faísca, devido a condições térmicas suficientes para iniciar a reação. A TAI é um parâmetro de referência para análise do risco associado a superfícies quentes, aquecedores e condições operacionais que possam elevar temperaturas acima de limites aceitáveis.

  6. Limite Inferior de Inflamabilidade – LII (kg/m³): Concentração mínima de combustível no ar capaz de sustentar combustão após ignição. No estudo, o LII é fundamental para avaliar quando uma liberação pode produzir mistura inflamável e para suportar critérios de dispersão/diluição e de extensão de áreas onde se exige controle de fontes de ignição.

3.5 – NÓ DE PROCESSO

 

 

De acordo com a ABNT NBR IEC 60079-10-1, a classificação de áreas é estabelecida a partir da identificação de locais onde pode ocorrer atmosfera explosiva por gás em quantidades que demandem precauções especiais.

O nó foi decomposto, conforme apresentado no quadro “05 – NÓ ESTUDADO”, em três categorias para assegurar cobertura completa dos pontos críticos:

3.5.1 Equipamentos (contenção primária)

No Nó 05, os equipamentos principais (reservatório, vaporizador e conjunto regulador/filtro) são tratados como itens de contenção primária, nos quais a liberação para a atmosfera não é “esperada” pelo corpo do equipamento, mas pode ocorrer em interfaces e acessórios. Assim, para fins do estudo, a atenção recai sobre:

  • bocais e cabeçotes de conexão;

  • interfaces com instrumentação;

  • pontos de drenagem e purga;

  • dispositivos de segurança e proteção contra sobrepressão (quando presentes).

3.5.2 Componentes (tubulação e instrumentação associada)

O diagrama indica tubulações de processo e ramais identificados (ex.: GL‑41.1/4″, DV‑1.1/4″, ramais de dreno e linhas auxiliares), além de instrumentação e indicadores (p.ex., indicador de pressão/manômetro, medição de vazão e indicação de nível/volume). Esses componentes introduzem potenciais pontos de liberação em:

  • derivações e tomadas instrumentais;

  • corpos de instrumentos e suas conexões;

  • trechos com reduções/adaptações (p.ex., bucha de redução);

  • conexões roscadas/uniões, quando aplicáveis.

3.5.3 Conexões (pontos com maior probabilidade relativa de fuga)

A legenda do desenho destaca elementos típicos do nó que, por natureza, concentram interfaces mecânicas e manobras operacionais, sendo tratados como pontos prioritários na avaliação de fontes de liberação:

  • válvulas (incluindo válvulas de enchimento, válvulas de espera e válvulas de excesso de fluxo);

  • conjunto multiválvula (quando aplicável ao arranjo);

  • válvula de alívio hidrostático (proteção contra aprisionamento de líquido/expansão térmica em trechos bloqueáveis);

  • uniões/flanges e demais pontos de vedação;

  • linhas e pontos de drenagem e purga (conforme indicados no esquema), por estarem associados a operação/manutenção e possibilidade de emissões controladas ou incidentais.

A legenda do esquema diferencia GLP em fase líquida e GLP em fase vapor, o que afeta diretamente o cenário de classificação:

  • Em trechos e interfaces com fase vapor, uma liberação tende a gerar mistura inflamável de forma mais imediata, exigindo atenção especial a conexões, válvulas e tomadas instrumentais do circuito de gás.

  • Em trechos com fase líquida, a atmosfera explosiva pode decorrer de evaporação e/ou flashing, dependendo das condições de processo, além de implicar risco adicional por acúmulo local (p.ex., em áreas confinadas/abrigadas) caso haja vazamento com formação de poça.

Assim, para cada fonte potencial do Nó 05, o estudo deve registrar a fase predominante durante operação normal e durante manobras (abastecimento, purga, drenagem), pois isso impacta a estimativa de dispersão/diluição e o enquadramento do grau de liberação.

3.6 – FONTE DE LIBERAÇÃO

 

 

No contexto da ABNT NBR IEC 60079-10-1, um dos passos mais decisivos para classificar áreas com atmosferas explosivas por gases/vapores é identificar e qualificar a fonte de liberação (release source). Em termos práticos, a fonte de liberação é o ponto (ou conjunto de pontos) a partir do qual uma substância inflamável pode ser liberada para a atmosfera, criando condições para formar uma mistura inflamável com o ar.

Ao tratar o nó de processo a ser estudado (isto é, o “recorte” da instalação onde o fluido inflamável está presente), a norma orienta que a classificação não deve partir do equipamento como um todo (“o skid”, “o tanque”, “a linha”), e sim dos pontos com potencial real de emissão: conexões, selagens, drenos, respiros, válvulas, instrumentos, flanges e qualquer interface de vedação. Esse enfoque reduz dois erros comuns: superclassificação (custo desnecessário) e subclassificação (risco real não tratado).

A imagem organiza o item “06 – FONTE DE LIBERAÇÃO” em três classes: Contínua, Primária e Secundária. Esse enquadramento é central na 60079-10-1 porque traduz, de forma objetiva, a frequência e a duração esperadas de uma liberação — isto é, o quão provável é existir uma atmosfera explosiva ao redor daquele ponto, durante a operação.

1) Liberação contínua

Aplica-se quando a liberação ocorre de forma contínua, por longos períodos, ou de forma muito frequente. Em nós de processo, exemplos típicos (dependendo do sistema) incluem emissões inerentes ao funcionamento (p.ex., pontos onde o produto inflamável está em contato permanente com a atmosfera, quando isso faz parte do processo).

Implicação na classificação: tende a conduzir ao cenário mais severo, pois há maior probabilidade de existir mistura inflamável por tempo significativo — porém o resultado final depende da ventilação/diluição do local.

2) Liberação primária

Ocorre quando a liberação é esperada ocasionalmente em operação normal, como parte de rotinas de processo ou manobras previstas. No nó, isso pode ocorrer, por exemplo, em operações regulares de purga, equalização, amostragem, drenagens operacionais e outros pontos de uso periódico.

Implicação na classificação: normalmente indica risco relevante em operação normal, mas com presença intermitente. A extensão e a zona dependem da combinação entre grau de liberação e condições de ventilação (natural/mecânica e sua disponibilidade).

3) Liberação secundária

Refere-se a uma liberação que não é esperada em operação normal; se ocorrer, tende a ser rara e por curto período (por exemplo, pequenas perdas por degradação de vedação, falhas eventuais em conexões, vazamentos incidentais).

Implicação na classificação: frequentemente conduz a zonas menos extensas (ou até à não classificação em alguns casos), desde que a ventilação seja adequada e que não existam condições de confinamento/acúmulo. Ainda assim, o estudo deve ser conservador onde houver incerteza operacional, histórico de falhas ou manutenção deficiente.

4 – ESTUDO PARA O LAUDO DE ATMOSFERAS POTENCIAMENTE EXPLOSIVAS – ÁREAS CLASSIFICADAS

 

Com a metodologia consolidada (nó definido, substância caracterizada, fontes identificadas e condições ambientais avaliadas), a partir daí podemos iniciar o Estudo de Áreas Classificadas com foco em resultados práticos e auditáveis, tipicamente organizados em quatro entregáveis:

🗺️ DESENHOS COM OS RAIOS/LIMITES DAS ZONAS

  • Plantas e/ou isométricos marcando o envelope espacial das zonas (0/1/2 ou 20/21/22, conforme aplicável).

  • Indicação clara de fontes que originaram cada zona e premissas (operacionais e ambientais).

🔎 INSPEÇÕES

  • Inspeções direcionadas por zona e por tipo de proteção aplicável (com rastreabilidade por circuito/ativo).

  • Evidências fotográficas e registros de campo para sustentar o RNC e o plano de ação.

📌 RELATÓRIO DE NÃO CONFORMIDADE (RNC) / DIAGNÓSTICO EX

  • Consolidação das divergências entre o “como está” e o “como deveria estar” (instalações, seleção de equipamentos, vedação, integridade, sinalização, documentação, gestão de mudanças).

  • Priorização por criticidade e vínculo com o risco identificado no zoneamento.

🧭 PLANO DE AÇÃO

  • Ações corretivas e preventivas com responsáveis, prazos, critérios de aceite e rastreabilidade até a não conformidade e a origem normativa.

  • Integração com manutenção, confiabilidade, SMS e gestão de mudanças — para evitar que o estudo “envelheça” em poucos meses.

5 – CONCLUSÃO

 

Classificar áreas não é “desenhar círculos” nem “escolher Zona 1 ou 2 por experiência”. É transformar fenômenos físicos (liberação, dispersão, deposição, ressuspensão) em critérios técnicos rastreáveis, alinhados à ABNT NBR IEC 60079.

As imagens reforçam exatamente essa disciplina:

  • O estudo começa com o recorte correto (nó estudado) e com a separação do sistema em equipamentos, componentes e conexões, porque é nas interfaces que o risco se materializa.

  • Em seguida, exige a leitura correta da substância e de suas propriedades, para que a análise não seja baseada em “achismos”, mas em comportamento real do material.

  • Depois, obriga a classificar a natureza da fonte (contínua/primária/secundária) e a entender o papel do ambiente (aberto/fechado; ventilação local/normativa), pois é isso que define probabilidade e persistência da atmosfera explosiva.

  • Finalmente, ao estender o raciocínio para a 10‑2 (poeiras combustíveis), fica evidente que o método é o mesmo, mas a atenção se desloca para nuvens de poeira, camadas, acúmulos e práticas operacionais (housekeeping, exaustão, contenção).

O valor real de um Estudo de Áreas Classificadas não está apenas em “cumprir norma”: está em gerar decisões de engenharia e operação que são defendíveis, aplicáveis e sustentáveis ao longo do tempo — materializadas em desenhos de zona, relatórios de não conformidade, inspeções e um plano de ação que reduz risco de forma objetiva.

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